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Coluna do Rota

Sem orçamento não há justiça fiscal: por que tributaristas precisam olhar para o gasto público

Publicado em 09/03/2026 às 09:51
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Por Marcelo Magalhães Peixoto
Tempo de leitura: 3 minutos

O debate tributário brasileiro costuma começar, e muitas vezes terminar, na mesma pergunta: quanto o Estado deve arrecadar e quem deve pagar a conta. Raramente se faz a pergunta complementar, igualmente essencial: como o Estado utiliza os recursos que arrecada.

Essa ausência revela uma limitação importante na forma como discutimos as finanças públicas no Brasil. O debate fiscal frequentemente se concentra apenas na tributação, ignorando que a atividade financeira do Estado possui duas dimensões indissociáveis: arrecadar e gastar.

A tributação constitui apenas uma parte da atividade financeira estatal. A outra parte, igualmente relevante, encontra-se no gasto público e, sobretudo, no orçamento público, instrumento no qual se materializam as escolhas fundamentais sobre a utilização dos recursos arrecadados.

Apesar disso, o debate jurídico brasileiro frequentemente separa aquilo que, na realidade, é inseparável. O Direito Tributário desenvolveu-se intensamente nas últimas décadas, com refinadas construções dogmáticas sobre hipótese de incidência, capacidade contributiva e limites constitucionais ao poder de tributar.

Paralelamente, o Direito Financeiro, que examina a atividade financeira do Estado em sua totalidade, passou a ocupar espaço relativamente secundário na reflexão jurídica. Essa fragmentação empobrece a compreensão das finanças públicas.

Tributos, despesas públicas, orçamento e dívida estatal não são fenômenos isolados. Eles constituem partes de um mesmo sistema: a atividade financeira do Estado. Essa percepção já estava presente na tradição jurídica brasileira, particularmente nos estudos de Aliomar Baleeiro, para quem o fenômeno financeiro estatal deveria ser analisado de forma integrada.

Ao concentrar o debate apenas na tributação, corre-se o risco de ignorar aspectos fundamentais da realidade fiscal.

Em diversas ocasiões já se afirmou que o Brasil não deve necessariamente demais; o Brasil deve caro. O problema fiscal brasileiro muitas vezes está menos relacionado ao volume da dívida pública e mais associado ao custo do seu financiamento, à qualidade do gasto público e à forma como o orçamento é estruturado e executado.

O orçamento público ocupa posição central nesse debate. Mais do que um instrumento contábil, ele representa um documento jurídico e político fundamental, no qual se revelam as prioridades do Estado e as escolhas coletivas sobre a utilização dos recursos públicos.

É justamente nesse ponto que emerge uma ideia que considero essencial: sem orçamento não há justiça fiscal.

A justiça fiscal não depende apenas da forma como os tributos são instituídos ou cobrados. Ela depende também da maneira como os recursos arrecadados retornam à sociedade por meio das políticas públicas.

Um sistema tributário pode até respeitar princípios constitucionais relevantes, como igualdade e capacidade contributiva. Ainda assim, se os recursos arrecadados forem utilizados de forma ineficiente ou desconectada das necessidades coletivas, dificilmente se poderá falar em verdadeira justiça fiscal. Tributação e gasto público são dimensões indissociáveis de um mesmo fenômeno.

Foi justamente com essa preocupação, que nós da APET, decidimos estimular essa discussão de forma mais sistemática. No segundo semestre, a entidade pretende criar um grupo de estudos sobre orçamento público e Direito Financeiro, aberto a todos os interessados no tema.

Convidamos aqueles que desejarem participar dessa reflexão a acompanhar as reuniões e eventos da entidade e a dialogar conosco sobre essa iniciativa.

Porque, no fundo, a pergunta que deveria orientar todo o debate fiscal é simples: não apenas quanto o Estado arrecada, mas o que ele faz com aquilo que arrecada.

Enquanto o debate jurídico continuar olhando apenas para os tributos e ignorando o orçamento, estaremos discutindo apenas metade do problema; e metade de um diagnóstico raramente produz boas soluções.

Por isso, se quisermos levar a sério a discussão sobre sistema tributário, responsabilidade fiscal e justiça distributiva, é preciso reconhecer uma premissa elementar: sem orçamento não há justiça fiscal.

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Marcelo Magalhães Peixoto é Mestre e Doutorando em Direito Tributário pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP). Presidente-fundador da APET – Associação Paulista de Estudos Tributários.

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